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domingo, 18 de outubro de 2015

Com o nariz no umbigo


TEMA 
Quando os eleitores de uma Democracia continuam a votar sabendo, por experiência acumulada, que as promessas são de "fingimento", esse voto não é um acto de esperança, é um acto viciado em rituais "faz-de-conta". Há uma grande diferença entre esperança e vício.
Os "clientes assíduos" de máquinas de jogar não são jogadores cheios de esperança, são jogadores cheios de vício da rotina "talvez agora", mais conhecidos por "pacóvios d'aldeia".

Esperança é perseguir um futuro provável para o transformar em presente, vício é um acto cego que, por rotina, repete o passado sem futuro. A diferença está entre a lucidez do provável e a cegueira da rotina. Por outras palavras, é a diferença de caminhar com "o nariz levantado" ou caminhar com "o nariz no umbigo".

O interessante são cidadãos que, com lucidez, criticam as falsas promessas (portanto, sem esperança), mas votam (viciados??) em quem as faz, numa lenga-lenga entre dentes "eles são todos iguais". 

Considerando um contínuo desde distorções cognitivas até vício do jogo, numa Democracia com este comportamento a questão a responder é: O que se passa? Haverá um bug?

ÍNDICE
I    - Introdução
     - "to say"e"to tell"
II  - O bug "subordinação democrática"
III - Co-laboração democrática
     - Os diferentes
     - Subordinação cruzada
IV - Conclusão

I - Introdução

A Democracia é um processo social inserido na cultura de que se alimenta. Isto quer dizer que há uma íntima interdependência entre o sistema democrático e a cultura em que está inserido.
Numa analogia, é como uma árvore enraizada num terreno:


e cujo ADN se expressa ao adaptar-se a esse terreno, seja ele desértico, pantanoso, aluvião, rochoso,... . É este o motivo porque os agricultores conseguem gerir as suas plantações modificando o solo com mais ou menos água, adubos, fertilizantes,... .

Para se entender o funcionamento de uma Democracia concreta é fundamental olhar para a cultura e/ou sub-culturas que, na sociedade, formatam os seus cidadãos. Das suas várias características, a aceitação ou recusa da diferença entre os cidadãos é um dos factores fundamentais. A problemática da imigração é dos reflexos mais conhecidos desta característica:

Imigrantes -  Enquadramento "aprisionando"  os outros diferentes
(foto A: Sirios fugindo da guerra, Europa Set. 2015)
Imigrantes - Apoio "acolhendo" os outros diferentes
(foto B: Sirios fugindo da guerra, Europa Set. 2015)
Em "brevis", poder-se-á considerar a foto [A] como expressando uma relação social do estilo "to tell" e a foto [B] do estilo "to say". Segundo E. Schein, na sociedade, a relação social com o outro poderá processar-se segundo um destes dois formatos.

Na prática, apesar de ambas as palavras significarem "dizer", as atitudes nelas incorporadas são diferentes e essa diferença vai originar diferentes estilos de relações democráticas.


1.1 - "To say"

...é uma relação em que o dizer é uma proposta solicitando "falares" do outro, ou seja, é uma atitude para continuação, abertura e alargamento da comunicação. Significa uma relação "pessoa-pessoa".
Como exemplo, o hábito português de, no Café, dizer "Eu queria um café..." em vez de dizer "Eu quero um café!!". A primeira  é uma atitude do tipo "to say"e a segunda do estilo "to tell".

A diferença entre ambas é que no frasear "Eu queria..." existe uma proposta de manter a comunicação aberta e o outro continuar activo com opção pessoal. Na verdade, nas entrelinhas da frase existe uma confirmação do outro como uma pessoa igual: "se não se importar, se concordar... eu gostava que...".

Em síntese, é uma relação P2P (peer-to-peer). A sua essência é a aceitação e respeito de pessoas diferentes com pensares diferentes para um agir comum.

Citando e parafraseando E.Schein, "é a arte de dizer (ou fazer perguntas) para aprofundar o que não sabe, mas mantendo uma relação baseada na curiosidade e interesse pelo outro". É bem diferente de contacto objectal tipo policial, judicial, técnico, ensino, etc, em que o outro é considerado dependente, subordinado, incapaz, ignorante, etc.

Como analogia, um exemplo de um mesmo caminhar com pensares e agires diferentes:

Saliente-se o respeito, curiosidade e interesse do "companheiro" humano

1.2 - "To tell"

...é uma relação em que o dizer é uma afirmação para o outro ouvir e aceitar, ou seja, é uma atitude de fechar, reduzir e anular a comunicação. Significa uma relação "pessoa-objecto".
Como exemplo, o formato da relação autoritária "não está aqui para pensar, está p'ra ouvir e fazer..." ou "...quando digo para saltar, só pergunta até que altura" utilizado na educação tipo recruta.

A sua essência é a instalação de um "drill" (punção?) mental no pensar do outro, uma espécie de lobotomia psicológica. Esta técnica é muito usada em debates TV ou outros, com o formato "jamming" (ruído de fundo a abafar a comunicação) onde o mais vulgar é o "disco rachado" (repetição monótona de palavras) até o outro desistir ou ficarem ambos num "diálogo de surdos" (falam mas não se ouvem):

Quando a democracia passa a discutócracia

Segundo E.Shein, com o "to tell" não se pretende diálogo, pretende-se apenas que o outro oiça, se cale e sinta inferior. Citando, "...telling makes people feel inferior―it shuts them down".
Em síntese, é uma relação "top-down" característica de subordinação instalada, comunicações bloqueadas  e intenções impostas.

A sua essência é aprisionar o outro nas ideias emitidas, desprezando diferenças e destruindo simpatias e  empatias:



II - O bug da subordinação democrática

A Democracia são pessoas diferentes num projecto comum. O factor crítico da Democracia é a problemática da diferença e, só em segundo lugar, é a problemática do projecto comum.

É óbvio que, se o grupo tiver um conflito de diferenças, esse grupo nunca conseguirá obter um projecto comum. Amolgamar diferenças e impor um projecto constrói, não um resultado comum, mas sim um pacote de conflitos escondidos. Como diz o provérbio "quando se constrói em areia, o prédio abre fissuras".

Na verdade, pessoas diferentes significa pensares diferentes mas projecto comum significa pensar em conjunto. O problema é claro, a Democracia precisa de competências de pensar em conjunto com pessoas de pensar diferente.

Na falta desta competência, foi inventada a técnica da subordinação democrática, conhecida sob o nome "elegante" de liderança democrática.
Na verdade, a técnica, vista sob o ponto de vista de quem manda, poder-se-á chamar liderança, mas sob  o ponto de vista de quem obedece trata-se de subordinação.

É preciso não esquecer que o conceito de "leader" surge no sec XIX no controlo do operariado e "leader" significa o dono da "lead" ... e lead é trela.


Assim, no seu sentido original, o leader fabril seria o dono da trela sobre os operários, atitude hoje assumida por muitos democratas autoritários dos dois lados da "barricada":

discutócracia autoritária  (...não possível na ditadural)

É interessante reparar que, na dinâmica da liderança, o factor crucial não é "mandar" mas sim "obedecer", pois mandar sem ter subordinação significa "palhaçada" (...tu mandas e eu não obedeço...) muitas vezes acompanhado do jogo infantil de "quem grita mais alto".
Pelo contrário, a subordinação pode existir sem acto de mandar, na verdade, ela é o fulcro do processo  ou, como diz o poeta, "...subordinava-se às intempéries da vida...".

A Democracia pode existir com três tipo de subordinações diferentes:

A - Subordinação perene - incorporada nos padrões culturais como traço psicológico (crença assumida), tipo castas, escravatura, servos da gleba, etc. Não é um determinismo individual, é uma condição social assumida.

B - Subordinação opcional - é uma atitude individual assumida por aceitação de compromissos, tipo hierarquia militar, organizacional, religiosa, ou outras, que se instala como traço de personalidade e é viral, isto é, contamina-se por treino, conexões afectivas, pertença, cultura, enquadramento, etc.

C - Subordinação cruzada - é uma relação ocasional de "co-acção/coacção" com outro. Ela é um "double mind" positivo de submissão/igualdade, muito usada em equipes saudáveis, mas não existentes nas equipes "zombies", doentias.

Em resumo:


Como exemplo, a recruta militar (ou empresarial, etc) começa a subordinação com o estilo opcional, "...eu quero ser militar, empregado, etc..." e depois todo o treino de recruta é fazer a modelagem psico-cultural para a subordinação perene.

Por exemplo, quando mais tarde, a evolução de um militar se processa no sentido da subordinação cruzada, isso vai pôr em causa o pretendido misticismo do "mandar-obedecer" por crença (subordinação perene).
Neste caso, normalmente, esse militar só tem três soluções, prisão por insubordinação, abandono do sistema hierárquico militar ou aceitação dos vários "q'ridos chefes" da hierarquia.

A subordinação democrática é um problema complexo porque contem um paradoxo vivo, o duplo vínculo (double mind) entre a igualdade e a diferença, ou seja, como indivíduos somos diferentes e como cidadãos somos iguais.
O truque democrático foi criar um "conceito paradoxal", ou seja, criar os diferentes "mais iguais que outros" e com o direito de impor subordinação.

Esta "subordinação democrática" é uma maravilha de lógica paradoxal, pois "o direito de votar é perder  o direito de continuar escolhendo", isto é, deixa de poder opinar e tem que passar a obedecer.
Noutras palavras, o eleitor é competente para escolher o eleito, avaliando o seu passado, suas capacidades e suas acções, depois fica incompetente de o tornar a fazer até ás próximas eleições.

Para evitar confusões, estes "iguais mas diferentes" ficam camuflados nos títulos de funções, tais como, "Secretários-gerais, Coordenadores, Presidentes,  etc" consoante a ideologia acrençada (o Freud devia adorar este truque).

Em poucas palavras, este artifício é quando "o teu direito de votar é dar-me o direito de eu ficar a mandar e tu ficares sem voto na matéria, apenas tendo o dever de obedecer". Nessa situação "eu uso a tua concordância  para aquilo que eu entender".
Por exemplo:

Nas eleições de Out 2015, os eleitores, por livre escolha, seleccionaram o seu projecto entre os distintos projectos apresentados. Os critérios podiam ser de preferências e/ou recusas inconciliáveis. Quer isto dizer que a votação não esclarece, por exemplo, se a escolha PS (ou PC) é por preferência de um ou por total recusa do outro, pelo que a sua junção será inadmíssivel.

Porém, depois no pós-eleições, à sua revelia, o seu voto é usado para juntar projectos políticos distintos, o que não estava previsto na intenção de quem votou e para quem poderiam ser inconciliáveis.
Na democracia cada voto é para ser usado de acordo com a intenção do voto.


Em Out. 2015, existiram 32% de cidadãos socialistas que escolherem o projecto PS e depois esses votos (32%), sem sua autorização, são democraticamente usados para um projecto hibrido com partidos em que não votaram por preferirem PS e/ou por recusarem PC e/ou BE... e sem se saber qual foi o seu critério.
Estas percentagens são desconhecidas de quem fez a hibridagem pelo que esta não é leal para quem votou. Pode ser legal mas não é legítima.
O mesmo é sucede com os cidadãos comunistas e com os do BE.

É como que eu dar dinheiro para comprar um gato e, por intenções do comprador, ele trazer-me para casa um gato assortie com um cão e um carneiro para viverem comigo... porque são todos mamíferos. O dinheiro entregue não foi para ser usado desse modo.

Na verdade, se os eleitores PS quisessem o projecto comunista tinham-no escolhido ou os comunistas escolheriam o projecto socialista ou os BE os dos outros dois. Se o projecto é híbrido tem que ser proposto híbrido e não fazer hibridagem posterior sem consulta dos "donos" dos votos.
A lógica democrática não é uma venda e compra de "gato por lebre", com metamorfoses posteriores nas costas dos votantes.

Por regra, este período de escolha por votação é o direito que assiste ao eleitor de 4 em 4 anos e é para ser cumprido e não adulterado. É um direito sazonal não existente nas ditaduras.


A repressão policial é apenas uma mensagem dos eleitos (os mais iguais que os iguais) de dizer, com linguagem não-verbal, "fora das eleições não têm voto na matéria... vão para casa e calem-se".
O bug que permite este "truque democrático" é claro:
A Democracia actual vive de subordinação perene e de subordinação opcional.
A Democracia futura viverá da subordinação cruzada.
Na vida social, este escamoteamento lógico também foi facilmente resolvido porque a diferença e a igualdade ficaram a pertencer a áreas diferentes, ou seja, pode-se ser igual numa área e diferente noutra.
Exemplo:
Aceitação simultânea da igualdade
e da diferença na relação com o outro
Ou em exemplos clássicos:

√ - escravos eram tratados como família, mas continuavam escravos;
√ - latifundiário manda o filho e o filho do trabalhador juntos para a universidade, mas não deixa a filha casar com ele.
√ - cidadãos cristãos (políticos, empresários, etc) apoiam os pobres com esmolas, mas economicamente fomentam salários baixos.


III - Co-laboração democrática

3.1 - Os diferentes

A diferença é a base da vida.
As sementes podem ter a mesma programação (ADN) mas não existem duas árvores iguais, pois pequenas diferenças no contexto vão  estimular o ADN a expressar-se de modo diferente.

Na sociedade é imprescindível o paradigma da diferença ser um factor positivamente importante e o paradigma da homogeneidade perder a sua doença infantil ou senil de horror à diferença quer nos seus formatos de xenofobia, racismo ou desprezo, quer no isolamento (ghettos), amesquinhamento ou exploração.

Paradoxalmente, apesar deste horror à diferença, bem explícito no provérbio militar "prego que sobressai é para levar martelada", as diferenças são valorizadas, procuradas e aplaudidas desde o hollywoodesco "Star system":


até ao prestigioso Prémio Nobel;


pois na verdade, todas as civilizações nascem, crescem e progridem à custa das diferenças chamadas invenções:

Os "diferentes" criadores de "diferenças",  chamados inventores
O meio milhar de premiados Nobel são apenas a ponta do iceberg de milhões de outros inventores que modificaram o mundo e criaram civilizações com as suas diferenças de criação pessoal.
Segundo a International Federation of Inventors'Associations, só em 30 anos (1970-2001), foram registadas um milhão de invenções, às quais se devem somar os milhões existentes no passado e os milhões que, despercebidos e sem registos, melhoraram o pequeno quotidiano.

Na Alemanha, um amigo meu, Valentin Kern, para integração multi-cultural e anti-xenofobia, faz nas escolas diversas actividades de valoração da diferença. Pessoalmente, integrado num grupo de técnicos, experimentei algumas, como por exemplo:

Numa floresta, de olhos vendados fomos conduzidos para o seu interior e cada um levado para junto de uma árvore. Durante algum tempo (10-15 minutos), sem ver, tentámos conhecer a "nossa" árvore, procurando e memorizando diferenças.
Regressados ao ponto de partida, desvendados os olhos, cada um foi procurar a "sua" árvore. Todos encontramos e reconhecemos a "nossa" árvore", as diferenças estavam lá.

Mais tarde em Portugal, repeti estas actividades com crianças e nas conversas posteriores (debriefing) sobre o acontecido, sempre fiquei espantado com as conclusões dos jovens, como por exemplo, "...por isso no futebol não são todos guarda-redes" (11 anos) e "...sou amigo dele porque faz coisas diferentes e isso é divertido" (10 anos).

Segundo estudos de antropologia, antes de existir na pré-História o conceito de mercado (...eu tenho e tu não tens, mas dou-te se me deres o que quero...), a oferta e aceitação de novas diferenças era a atracção dos encontros de pessoas conhecidas e/ou desconhecidas.

Dar e receber diferenças, informações, objectos, (fabrico ou uso) era uma actividade fundamental para melhorar a sobrevivência. Por oferta de outros, aprender "truques" que não sabiam era valioso e respeitado. As diferenças eram mudança e recurso importante para a vida.

Em Maio 1979, os Tulambi, uma tribo da Nova Guiné, teve o seu primeiro encontro com o homem branco, cuja côr de pele os assustou mas, exactamente por isso, os fez aproximar na sua curiosiadde por conhecer as diferenças.

Não houve hostilidade, nem horror à diferença, antes pelo contrário houve interesse e atracção por ela. Apesar do espanto e mêdo da pele branca quiseram tocar-lhe, quiseram provar o que não conheciam (sal) e experimentar objectos (fósforos), atitudes que alguns antropólogos prospectivam como o normal nos encontros da pré-História, ou seja, curiosidade e interesse pela diferença.

Apresenta-se um pequeno clip (4m) desse primeiro encontro:


A actual Democracia, "esquizofrenicamente" vive um duplo vínculo (double mind), "adora" a diferença, Star system, Prémios Nobel, estatutos diferentes (reis, chefes, presidentes, q'ridos lideres) e, simultaneamente, "odeia" os diferentes (xenofobismo, racismo, ghettos, crenças políticas e religiosas, etc). A pior consequência desta "esquizofrenia social" é o bloqueio da incapacidade de pensar em conjunto com quem pensa diferente.

É de relembrar que a diferença é real, mas a igualdade é fictícia. É um truque mental para agrupar e classificar diferenças ao ignorar uns aspectos e só considerar outros. Exemplo, [....os bois são animais que...] e enunciam-se as igualdades, esquecendo diferenças de raças, peso, pelagem, idade, hábitos, etc. Na verdade, não há dois iguais.

Em conclusão, se nunca há dois indivíduos iguais, física e mentalmente, e se a essência da Democracia é pensar em conjunto com outros, então a destreza crucial de qualquer democrata é a sua capacidade de pensar integrado com quem pensa diferente de si.
Democracia é pensar em conjunto com pensares distintos (think together with think differently).


3.2 -  Subordinação cruzada

O respeito pelo outro é o eixo crucial da subordinação cruzada.
Numa imagem ilustrativa, esta subordinação é como dançar, onde o respeito pelo outro faz aceitar o seu movimento ao mesmo tempo que o pressiona para o seu.
A regra é simples. Em cada momento, os dois orientam (mandam) e os dois adaptam-se (obedecem). 
Dizer que o homem conduz quer dizer que o faz dentro dos condicionantes impostos pelo outro, doutro modo não é uma dança é uma parada "militar" a dois, com o "general" a comandar.
Técnicamente, é uma relação de subordinação baseada na simultaneidade de "coacção e co-acção".
Esta relação constitui um cruzamento de "pressão a.." com "adaptação a..." que, na prática, se traduz por uma atitude de "tu tens razão... eu faço" com uma proposta de "eu proponho ...tu fazes?".

Talvez pareça dificil, mas é o segredo de uma equipa vitoriosa no basquete porque, devido ás mudanças rápidas e constantes num campo pequeno, são obrigados a ajustar-se instantânea e instintivamente com "comandos e obediências" cruzadas:
Relação de iguais, ambos obedecem e ambos mandam
Esta situação também acontece nas corridas por estafeta em que o testemunho só é passado por "subordinação cruzada" entre os dois; "Agora !?! ... OK!?!"


Este tipo de "sincronismo colaborativo" quando instalado no diálogo "to say" adquire um formato interessante.

A sua base teórica parte de um princípio óbvio: ninguém é Deus. Na prática, significa que, quando alguém fala, dirá sempre "dizeres certos" (ou "bons") e "dizeres errados" (ou "maus"), em percentagens variáveis.

A questão principal é se o outro só se centra e argumenta contra o que considera "dizer errado" e despreza considerar eventuais "dizeres certos".
A luta no debate é o encadear sucessivo de ataques aos "dizeres errados" do outro. Na prática, esta é a estrutura base do "to tell":


Pelo contrário, a alternativa oposta é quando o outro considera eventuais "dizeres certos" e os procura aprofundar, aproveitar, adaptar, esquecendo possíveis "dizeres errados".
A colaboração no debate é o encadear sucessivo de utilizações dos "dizeres certos" do outro, procurando criar algo novo que satisfaça ambos. Na prática, esta é a estrutura base do "to say":


A técnica de integração de disssensus, a substituir os  consensos, é feita com base neste modelo.


IV - Conclusão

A Democracia não-OK tem instalado o bug de "ataque à diferença", reforçado com a implantação da homogeneidade em crenças (partidos) e a incapacidade de pensar em conjunto com quem pensa diferente. Esta conjuntura é sustentada pela instalação de subordinações perenes e opcionais mais ou menos intensas.

Este "ataque à diferença" pode ser realizado por processos "hard", tais como, organizações estruturadas em disciplina partidária, cultura de autoritarismo, censura, perseguições, expulsão, etc, e/ou processos "soft" de grupos de pressão, subornos, chantagens, doutrinações, dependência económica e/ou cultural, etc.

Em resumo, esta democracia apresenta como doença infantil o horror à diferença e como doença senil o desejo de subordinação dos diferentes... e assim se caminha para o futuro com  o nariz no umbigo, sem ver nem escolher caminhos.


Continuação...

... a Democracia vive das votações como um instrumento de clarificação da vontade colectiva. A questão é saber se esse mecanismo é um processo directo e imediato ou tem níveis escondidos com efeitos distorcidos... e assim surge o 13º post "Votação democrática: tem a certeza?".

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Indice do Blog
(com links para os posts já publicados)

No princípio era o caos
A viragem da civilização 
Fugindo da estupidez organizacional
A evolução aos "éssses 

Temporada 2 - Soluções?
Não guiar pelo espelho retrovisor

Morreu o consensus, viva o dissensus

A técnica do Jazz e o dissensus
E assim, co-labora ou morre

E por fim, a democracia da cumplicidade 
Aqui no futuro?

O 1º sonho

Video resumo: Nova Democracia

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Nos indecisos está o futuro -Parte 2

Tema:
Em todas as Democracias, é normal a existência de numerosos cidadãos indecisos em quem votar e resistindo até ao último momento. Os "democratas assumidos" avaliam-nos como um mal necessário no funcionamento democrático, porém esta posição cria uma distracção que esconde o fundamental, isto é, eles não são doentes, são saudáveis a lutar contra doenças.

Os cidadãos indecisos são apenas cidadãos inteligentes, irredutíveis, que não desistem de votar com lucidez no seu voto. Por outras palavras, recusam-se a aceitar que tudo está bem e que o problema é deles quando, na verdade, sentem que está mal e é a votação que tem problemas. 
Assim, o seu elevado número nas Democracias expressa a presença de anticorpos saudáveis a reagir a virus endémicos (bugs) em situações bem definidas, as eleições.

Índice
Parte 1 (post anterior)
√ - Introdução
√ - A neutralidade
√ - Os votantes
√ - O bug "só votas SIM"

Parte 2 (post actual)
√ - O bugzinho dentro do bug
√ - A derrota do bug
   - Q&AM
√ - Conclusão


O bugzinho dentro do bug

O bug "só votas SIM", atrás descrito (post 10), contem um outro bugzinho sob a forma do dilema das "Falsas Escolhas".

Como se viu, a essência do bug "só votas SIM" é que, para dizer NÃO a uma alternativa, só é possível fazê-lo se se disser SIM a outra alternativa mas, quando existe uma que é desejável, este bug apesar de existir é inócuo.
Se não existem desejáveis, então o bug deixa de ser inócuo pois ter-se-á sempre que votar numa que também é indesejável. Neste caso, o dilema das "falsas escolhas" é activado.

In brevis, as "falsas escolhas"é o dilema em que não há escolha possível pois tem sempre que se escolher o que não se quer. Como ilustração, a história do Casamento Democrático:


Numa comunidade, quando uma jovem faz 20 anos a família lista os seus pretendentes e vota o futuro marido. É tudo muito democrático pois o noivo é votado pelas mulheres de toda a família, incluindo noiva, avós, mãe, irmãs, tias, primas próximas e afastadas. 

O sistema é simples, vota-se e o mais votado casa. Se as mulheres da família não sabem quem escolher votam em branco mas, se preenchem mal o voto, este é anulado. É possível votar contra qualquer pretendente indesejável e a abstenção é mal vista pois demonstra falta de consideração para com a noiva e família.
Boletim de voto
Ultimamente, a situação começou a complicar-se porque, perante certas listas de candidatos, as votantes recusavam-se a votar pois teriam sempre que escolher um e nenhum prestava.
Este conflito sempre existiu, mas essas perturbações ficavam enevoadas com a discussão sobre o valor dos candidatos e com a inabilidade das votantes. Por outras palavras, discutia-se um sintoma (a escolha a fazer) mas não se discutia a sua causa (o método de escolha).

Na última votação, o escândalo explodiu. O problema foi que, das 20 mulheres da família, entre brancos, nulos e abstenções, o total das que não votaram foi 17. Houve 3 votos e, destes, um candidato obteve 2 conseguindo 66% dos votos pelo que, democraticamente, exigiu casar com a jovem.

O conflito agudizou-se porque, apesar de ser verdade, as eleitoras diziam que ele tinha 90% de não-apoios versus 10% de apoios, o que também era verdade. Criou-se um impasse, pois a discrepância era grande entre 66% de votos corresponderem apenas a 2 votos em 20 eleitores.

Até então, a comunidade costumava, discretamente, considerar essas situações como desacordos pontuais desprezáveis e a "esquecer". Desta vez, o impasse não foi "esquecido" e o principal ponto de atrito centrou-se no conceito de absentista.
Para uns, era alguém ausente que não estava interessado em escolher, para outros, era alguém que, interessado em escolher, não ia votar pois teria sempre que escolher contra a sua opinião. Esta posição defendia que não eram absentistas ausentes mas sim escapistas, presentes na recusa de não poder dizer NÃO a todos.

Absentista ou Escapista
de ter que votar o que não quer ?

Ainda apareceu o argumento que "...quem não gostasse de nenhum candidato que apresentasse outro". Porém foi refutado dizendo que a função do votante era votar não era construir listas de candidatos.

Das conversas entre todos, a conclusão geral foi que, realmente, não se poderia votar em consciência se houvesse obrigação de votar num indesejável. Neste caso, o escapista seria o eleitor que não queria fazer voto fraudulento pois sabia votar, sabia o que queria e não podia demonstrá-lo.

Com este consenso o diagnóstico foi fácil, o problema estava no Boletim de Voto e não nos candidatos, nem nos eleitores. A solução também foi fácil, era só acrescentar a alternativa "nenhum deles" no Boletim de Voto:
Boletim de voto com solução ao dilema
O bugzinho do Dilema das Falsas Escolhas foi descoberto e anulado, os votantes puderam passar a poder votar de acordo com a sua consciência.

Porém, esta mudança trouxe outros problemas, pelo que soluções foram procuradas. Por exemplo, para impedir círculos viciosos foi criada a regra de que, se o total de votos SIM fosse inferior a 50%, seria necessário fazer nova votação. Foi ainda acrescentado que, para evitar obter o mesmo resultado, os candidatos anteriores não poderiam tornar a ser candidatos na repetição pois, logicamente, se fossem elegíveis já o teriam sido na primeira vez.

Tudo acabou bem, o Casamento Democrático entrou numa nova era. O futuro tinha nascido a partir de eleitoras indecisas que não abdicaram de lutar pelo fim do voto armadilhado. Afinal, elas não eram eleitoras débeis mentais, mas sim eleitoras lúcidas mentais e irredutíveis acerca da existência de um bug  a solucionar.

___ FIM___

Regressando ao actual sistema democrático e aplicando a mensagem da metáfora descrita pode imaginar-se que, "por milagre", se fariam três modificações:

1º -  o bug "falsas escolhas" era retirado do boletim de voto por incluir a escolha "nenhum destes";
2º - era definido um limite legal mínimo para a total percentagem de SIM (50%?) inferior à qual a eleição era invalidada e repetida,
3º - nenhum candidato da eleição invalidada poderia ser candidato na sua repetição.

Com estas novas regras eleitorais o equilíbrio partidos, candidatos e eleitores alterar-se-ia. Acções políticas, estratégias e campanhas teriam que substituir a primazia da "luta por ganhar" pela prioridade de "todos não-perderem".
Na verdade, esta pequena diferença era crucial pois transformava os eleitores no factor decisivo das eleições com a sua capacidade de poder de vetar todos os candidatos. Até então, com o método anterior, numa lista de maus, um mau é sempre eleito mesmo com poucos votos, o que é um contrasenso democrático.

De salientar que, numa assembleia a votar propostas, a votação uma por uma evita este bug porque cada votação contem SIM e NÃO pelo que, no final, todas podem ser recusadas. Numa votação por listas, a alternativa "recusar todos" tem que estar incluída ou então o bug aparece.

Esta pequena alteração não é pontual é sistémica.
Por exemplo, se esta ficção fosse aplicada às Eleições Legislativas 2011 com os seus 55,7% de votos SIM em partidos (vide post anterior), o risco corrido para todos perderem e ficarem inelegíveis na repetição seria de 5,7% de votos a emigrar de pequenos e grandes partidos para absentistas, brancos ou nulos.
Como é óbvio esta possibilidade teria alta probabilidade de poder acontecer pelo que, mesmo sem ter sucedido, existiria um sério aviso para o cuidado a ter nas eleições de 2015. O fantasma do veto geral,  com a consequente inelegibilidade, seria uma Espada de Dâmocles sobre os candidatos da qual, actualmente, estão imunes. As relações sociedade civil versus sociedade politica adquiriria um novo perfil.

O argumento dos custos, riscos e benefícios envolvidos numa mudança deste genero são reais mas, quaisquer que sejam, nunca têm valor absoluto. São sempre valores relativos entre os de continuar como está e os de mudar. Na prática, as questões básicas a responder seriam as clássicas em gestão da mudança:

- Há, ou não, um problema a resolver? - se sim, então,
- Quais as vantagens e desvantagens do antes e depois da mudança? e ainda,
- Deixa-se ficar como está, altera-se ou há outra alternativa?


A derrota do bug

Porém, com ou sem resolver o dilema do boletim de voto, há outras alternativas para não se ficar emaranhado no bug "só pode dizer SIM". Porém, se os candidatos forem todos inaceitáveis ter-se-á primeiro que resolver o dilema das falsas escolhas pois, como disse o sábio ao rei, [...se toda a comida está envenenada não há escolha, a decisão é dieta].

Pelo contrário, se existirem candidatos aceitáveis (ver movieclip no final), o processo é simples, basta obter informação válida para poder votar de acordo com a consciência. O ponto crítico da indecisão é a falta de informação para decidir, portanto, a solução óbvia é providenciar informação adequada, in tempore. 

A solução disponível no século XXI, à semelhança da dinamização informativa da VOTF (USA), é a criação de uma rede social


que, sem estruturas de controlo nem lideranças, alimente, clarifique e pressione a existência de informação actualizada sobre compromissos, promessas e decisões da gestão da Res Publica (República). Na prática é a sociedade civil a manter-se informada e atenta ao que a sociedade política, por si eleita, faz ou vai fazer.

As redes sociais criam uma dinâmica diferente da comunicação de massas com o seu modelo "um-a-muitos". Este modelo tem diversos formatos, tais como, jornais, rádio TV, brochuras, cartazes, folhetos, etc. Entre, os mais vulgares estão as NOTÍCIAS, com a técnica do "gargalo de garrafa" (bottleneck effect) para filtragem da informação difundida:



Saliente-se que os comentários online nas notícias não alteram o bottleneck, pois também eles são controlados e representam apenas uma pequeníssima permilagem (uma dezena??) de opiniões enviadas/lidas em relação às milhares difundidas.


Se se analisar o processo "notícias", encontra-se duas entidades em acção, o pólo massmedia, emissor activo, que difunde "um a muitos" e o pólo leitor, receptor passivo, que acolhe a notícia sendo "um entre muitos". Este processo funciona como controlo centralizado sobre a informação recebida por MUITOS. 

No século XXI, este controlo perde hegemonia ao ser contrabalançado pelas redes sociais. Nestas, a grande diferença é que cada receptor passivo é também emissor activo, ou seja, tudo passa a ser conversa de "muitos-a-muitos".

Em resumo, nas redes sociais o controlo informativo desaparece pois todos decidem "sim ou não" às emissões. A validade dos conteúdos já não é por existir crédito no emissor "oficial", mas sim por serem aprovados pela capacidade crítica de quem recebe. A comunicação deixa de ser um circuito de "gentinha a ouvir celebridades" (riffraff hearing VIP's) para ser um fluir de significados entre "pessoas a falar com pessoas" (persons talking to persons).

Esta diferença comunicativa tem grande importância pois o poder de mobilizar deixa de depender de lideres, estruturas e recursos e só depende da capacidade de cada receptor criar significados e ser emissor. Esta capacidade depende directamente da quantidade e qualidade da conexão com amigos, conhecidos e outras redes sociais e da facilidade com que um click pode abrir a emissão, liberto de fronteiras, horários, burocracias, hierarquias, etc.

Este funcionamento ultrapassa os "bottlenecks das notícias" e recria a tradicional conversa do "largo da aldeia" mas, agora, uma aldeia a nível planetário onde todos falam com todos.

Redes sociais fora do massmedia
na Aldeia Global em Portugal
A par de redes sociais para a obtenção de informação, existem outras formatos, um das quais é o formato Q&AM  - Question Answer Meeting

Q&AM - Question Answer Meeting

Este formato baseia-se num grupo questionante que prepara uma lista de perguntas concretas para esclarecer dúvidas e a serem respondidas em sessões faca-a-face com palestrantes. A sua utilização vai desde o ensino (Peer System) até à maturação colaborativa, passando por esclarecimento político.

Ao contrário de conferências e comícios nos quais o orador diz o que quer, como quer e quando quer, no Q&AM o orador diz o que os ouvintes querem saber. É uma espécie de QA, na perspectiva da Quality Assurance e Quest-Answer.
Durante o questionamento, em função das respostas, novas perguntas podem surgir que, escritas pelos participantes, são projectadas e ficam em standby como referência para futuras respostas e/ou futuras perguntas.

No caso de esclarecimento político, o objectivo do Q&AM não é possibilitar "missionação política" aos candidatos, mas sim criar condições para os eleitores esclarecerem dúvidas existentes e validar credibilidade e compromisso do candidato.  Numa palavra, é dar informação aos eleitores para eliminar indecisões.

Como é óbvio, objectivos diferentes obrigam a organizações diferentes. Como exemplo, dois formatos distintos aplicados à mesma sessão de 90 minutos com 100 participantes e 1 candidato.

A - Missionação política

1 - Na hora marcada os participantes entram na sala para assistir à palestra.
2 - O candidato fala durante 60 minutos com o discurso preparado e os eleitores assistem.
3 - No últimos 30 minutos, os eleitores colocam perguntas e o candidato responde.

Considerando que cada conjunto pergunta-resposta leva 5 minutos (2m pergunta + 3m resposta), os 30 minutos de dúvidas apenas permitem a 6 eleitores (6x5m=30m) participarem, pelo que 94% continuam apenas ouvintes.
Se se fizer blocos de perguntas para o candidato responder, poupar-se-á algum tempo nas respostas (1m a 1,5m em cada) mas elas perderão focagem e aumentará a generalidade. Por outro lado, só haverá uma poupança de 6 a 9 minutos, permitindo apenas mais 1 a 2 questões, pelo que passa de 6 para 8%.

Como se deduz, neste modelo a participação não é significativa com os seus 92 a 94% de ouvintes calados,

Em resumo, o núcleo duro do formato são 60 minutos de palestra com uma participação activa de 6 a 8% dos ouvintes esclarecendo as suas dúvidas. Normalmente, este debate é uma troca de "fait divers" técnico-afectivos, uns positivos na confirmação e outros negativos na contestação.

B - Esclarecimento Q&AM

1 - Antes da hora marcada, o grupo de participantes tem uma sessão prévia para preparação. Em média, são precisas 2 horas para 100 pessoas.
Nessa preparação, 100% dos participantes colocarão todas as dúvidas que pretendem esclarecer. Essa listagem de dúvidas será "clustered" (no calão técnico "clusterizada", isto é, agrupadas, integradas, relacionadas, sintetizadas) e formalizadas 12 perguntas (12x5m=60m) concretas a serem respondidas pelo candidato na 1ª parte da sessão.
A lista final será validada por todo o grupo e será reformulada caso alguém concluir que uma dúvida apresentada não está expressa.

Para aumentar a eficiência e eficácia, a preparação poderá utilizar metodologias de metaplan, cafe, buzzgroup, virose, etc, possibilitando um questionamento mais lúcido, profundo e concreto sobre a informação pretendida e ainda definir critérios para avaliar a qualidade das respostas obtidas. 

2 - Nos primeiros 60 minutos são apresentadas as perguntas preparadas com origem nas dúvidas de 100% dos participantes e ouvidas as respostas do candidato. Durante este período, eventuais novas dúvidas surgidas poderão ser comunicadas (escrito ou oral) à organização do Q&AM.

3 - Nos 30 minutos finais, as dúvidas surgidas na fase anterior serão apresentadas, eventualmente complementadas com questionamento directo.

Em resumo, o núcleo duro deste formato são 90 minutos para informação respeitante às dúvidas existentes. A 1ª parte reporta-se à questões obtidas previamente com 100% de participação e na 2ª parte aos aspectos conspícuos obtidos "in loco" por 100% do grupo.

O Q&AM, apesar de poder ser difundido pela internet, é diferente do modelo debate TV onde a conversa (programada ou espontânea) é entre poucos para ser difundida para muitos.

No debate TV em directo ou diferido, o verdadeiro interlocutor não é o "interlocutor" TV, pois todos falam para os telespectadores que não interferem, apenas ouvem, calados com a participação possivel  de 0%.
Os telefonemas online, filtrados ou não, são apenas "show" pois representam 0,000000??% em milhares de telespectadores, isto é, são entretenimento não são intervenção.
O interlocutor presente na sala, qualquer que seja a sua intervenção, apenas serve como "tabela", um mero pretexto, para outro aproveitar e difundir os "falares" desejados para os ouvintes telespectadores. Muitas vezes, qualquer relação entre o que um diz e o outro responde é pura coincidência.

Como diz a "teoria", no debate TV, o importante não é o que acontece lá mas sim a sua consequência na percepção dos telespectadores, ou seja, a regra é "Perder no debate e ganhar na audiência é óptimo, o contrário é péssimo".
No debate Q&AM a regra é diferente, ela diz que "Perder no debate é perder tudo" pois a audiência presente é o único interlocutor e as consequências só existem nela. Os participantes convencem-se ou não, entregam o seu voto ou não, tudo começa e acaba aqui.

Como exemplo de um Q&AM simplificado, apresenta-se um movieclip (4m) do filme Swing vote, 2008, com Kevin Costner. Neste caso, apesar de haver audiência, ela não "existe", pois a única consequência existente é o único interlocutor dos candidatos decidir em quem vai votar.

Tema:
Na eleição do Presidente USA, os dois candidatos ficam empatados. Descobre-se que, numa aldeola do Novo México, por falha de energia, o eleitor ficou registado mas o seu voto não ficou. Por lei, neste caso, o cidadão pode repetir o voto no prazo de 10 dias. Entretanto devido ao empate existente, este único voto decidirá o Presidente eleito.

O cidadão cujo voto sofreu falha de energia (Kevin Costner) é um desempregado, semi alcoólico, politicamente analfabeto, abúlico, crédulo que só vive o "momento presente". Durante 10 dias é "perseguido" pelo massmédia e pelo marketing dos candidatos que o tentam "caçar" para o seu lado.
O seu Alter Ego é a filha de 10 anos, politicamente activa, que o protege, "chateia" e defende das manipulações e responsabilidade em que foi mergulhado.

Por fim, decide que tem que votar e precisa de informação. Entretanto, como recebeu milhares de cartas com pedidos e informações que não leu, angustiado, começa a lê-las e acaba por pedir um Q&AM com os dois candidatos onde estes responderão às suas perguntas, para ele poder escolher um deles.

Preparando perguntas, perguntando, decidindo o voto


Conclusão

Os indecisos são uma classe lógica. Eles são os excluídos da informação política apesar de serem a sua força "laboral", no geral produzem a votação que dará a escolha final. Esta "responsabilidade" é clara nos títulos das notícias:


Sociologicamente, os indecisos não são um grupo. Na metáfora do "Casamento Democrático", foi o escândalo de obter 66% de apoio com 2 votos que provocou o detonador ("trigger") da transformação da classe lógica "eleitoras indecisas" em grupo decidido a alterar a situação.

Simplesmente, o facto de nas Democracias os milhares ou milhões de indecisos existentes não serem grupo, não invalida a projecção de que o "futuro está nos indecisos".
A semente está lá, só falta germinar na comunidade. Se o trigger (detonador, gatilho) aparecer, o tipping point (ponto de inflexão, viragem, contacto) unirá redes e a classe lógica com milhões de indecisos fará a metamorfose para grupo:


Continuação...

... a Democracia vive fora do real e dentro do mundo virtual das imagens difundidas. Assim, surge o 11º post, "Pregoeiros no poder ".

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Indice do Blog
(com links para os posts já publicados)

No princípio era o caos
A viragem da civilização 
Fugindo da estupidez organizacional
A evolução aos "éssses 

Temporada 2 - Soluções?
Não guiar pelo espelho retrovisor

Morreu o consensus, viva o dissensus

A técnica do Jazz e o dissensus
E assim, co-labora ou morre

E por fim, a democracia da cumplicidade 
Aqui no futuro?

O 1º sonho

Video resumo: Nova Democracia